Vamos estrear a nossa escrevinharia com dois livros extraordinários.
Estrada Leste Oeste, de Philippe Sands, Vogais, 2019 e Os Meninos de Varsóvia, de Elisabeth Gifford, Porto Editora, 2019.
O primeiro é um ensaio sobre as origens do genocídio e dos crimes contra a humanidade, aliás, como o subtítulo indica. Philippe Sands é um excelente autor, que prende o leitor da primeira à última página, mesmo num livro deste género, com cerca de 530 páginas. A história do avô de Philippe Sands, Leon Buchholtz, cruza-se com as de duas figuras que mudaram irreversivelmente o direito internacional: Hersch Lauterpacht, o criador da expressão «crimes contra a humanidade» e Rafael Lemkin, que desenvolveu o conceito de «genocídio». Duas terminologias que foram apresentadas pela primeira vez nos julgamentos de Nuremberga, em 1945, após a derrota da Alemanha, na Segunda Guerra Mundial.
Lauterpacht e Lemkin foram ambos estudantes de Direito, em momentos diferentes, na Universidade de Lviv, que também se chamou Lemberg, Lwów, ou Lvov, consoante a potência que dominava o pequeno território, disputado ora por ucranianos, ora polacos, ora russos, ora alemães. Buchholtz, o avô de Sands, também nasceu em Lemberg. Quer uns quer os outros nunca se encontraram, porém um fio condutor terrível os interligava: eram judeus.
Praticamente a totalidade das suas famílias foram assassinadas durante a ocupação alemã na Polónia, sob o comando do governador-geral alemão, Hans Frank.
Frank foi julgado e condenado à morte, em 1946, por crimes contra a humanidade. Lemkin e Lauterpacht estavam entre os presentes que condenaram Frank, porém desconheciam ainda o fim trágico das suas famílias.
Buchholtz, um homem marcado pelas vivências aterrorizadoras das atrocidades nazis. Obrigado a fugir, deixando em Viena a sua mulher e a sua filha ainda bebé, chega a Paris. Uma Paris ainda não ocupada pelos nazis. Enceta esforços para retirar a sua filha de Viena e consegue-o graças à generosidade de uma heroica religiosa. Tempos depois a mulher junta-se a ele. Entretanto, Paris é ocupada pelas tropas nazis e Buchholz é obrigado a esconder a filha de ambos num colégio interno.
E pronto aqui está a resenha de um livro fantástico (cinco estrelas) em que o autor vai montando camada a camada a história da sua família, desvendando os segredos da sua família entrecruzando-se com o destino de milhões de pessoas num dos mais tenebrosos e macabros períodos da história do mundo.
Agora o segundo livro que recomendo leitura.
Gira à volta do tema do anterior, mas este é um livro ficcionado apesar de assentar em factos e relatos reais. É a história do Dr. Janusz Korczak. O bom doutor que acompanhou 200 crianças para o campo de extermínio de Treblinka.
A acção decorre entre o período que antecedeu a invasão da Polónia pelos nazis, o período da ocupação e por fim a vitória dos Aliados.
Antes da ocupação, passeamos pelas ruas de Varsóvia, cidade cosmopolita, cheia de monumentos, jardins. Entramos no orfanato dirigido pelo Dr. Korczack, somos testemunhas do seu amor incondicional às crianças abandonadas, sem amparo.
Assistimos à invasão da Polónia pela Alemanha no dia 1 de setembro de 1939. No início da ocupação, as coisas ainda não são tão difíceis, mas os nazis tinham planos, planos para exterminar um povo. E desse plano nasceram os guetos. Um dos mais tristemente conhecidos na Europa é o gueto de Varsóvia. Mais de meio milhão de pessoas foram enfiadas numa área com pouco mais que 3 km2. E entramos no gueto. Vivemos e testemunhamos o dia a dia difícil, onde sobreviver era um golpe de sorte. O perigo espreitava a todo o instante.
Acompanhamos a crianças, o Dr. Korczak e a sua fiel e amiga de longa data pelas ruas do gueto até chegar à plataforma dos comboios. Sofremos a sede e a fome durante as longas horas de espera naquela gare. Mas não entramos nos vagões de gado. Porque o que se passa dentro desses vagões é indescritível. Apenas podemos supor e ter uma ínfima ideia do que lá se passava. Não saímos na plataforma de Treblinka, mas podemos fazer uma ideia.
Todos, mas todos, iam diretamente da gare para as câmaras de gás...
Esta leitura foi mais rápida, apesar de muitas vezes sermos obrigados a parar, porque as atrocidades são demasiado dolorosas, mesmo para estômagos como os nossos já muito habituados a este género de literatura.
Mais um livro 5 estrelas. Não conseguimos deixar de o ler. Aconselho vivamente, apesar das gralhas. 😀
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